Não concordo com este feedback. E agora?
Muitos feedbacks chegam mal formulados e alguns, de fato, não são justos. Como discordar de forma produtiva?
Aceitar e incorporar um feedback é, no fim, uma decisão individual. Não devemos nem concordar com tudo, como quem evita conflito a qualquer custo. Nem discordar de tudo, como quem acredita que é perfeito e está acima de qualquer crítica.
Conseguir discordar com elegância, calma, respeito, clareza e sem iniciar uma guerra é uma habilidade que precisamos desenvolver no ambiente de trabalho. E isso revela muito sobre nossa maturidade profissional.
Muitos feedbacks chegam mal formulados e alguns, de fato, não são justos. Especialmente aqueles carregados de julgamentos sobre nossa própria identidade.
Às vezes, o feedback revela um ponto cego, algo que ainda não sabíamos sobre nós mesmos. Outras vezes, revela um ruído de percepção que precisa ser ajustado.
Antes de discordar, é fundamental estar genuinamente aberto ao que o outro tem a dizer. Sempre precisamos investigar o feedback com mentalidade curiosa, fazendo perguntas que buscam exemplos, evidências e melhores explicações para aquela visão.
Nem toda discordância vem de uma análise racional. Às vezes ela nasce do ego fantasiado de razão. Da tentativa automática de proteger nossa imagem, nossa reputação ou a narrativa que construímos sobre nós mesmos.
Muitas vezes o desconforto não vem do conteúdo do feedback, mas do medo do que ele pode significar para nossa posição, nosso status ou a forma como somos vistos.
Em outros casos, simplesmente temos um ranço com a pessoa que está falando e tendemos a discordar automaticamente de tudo que ela fala.
Por isso, todo feedback pede reflexão.
Tempo para pensar
No meio da conversa, não é fácil organizar as emoções.
Quando estamos ali, ouvindo algo sobre a gente ou sobre o nosso trabalho que não faz sentido, o corpo reage. A gente entra naquele modo blindado e começa a agir no piloto automático: revidar, congelar ou fugir.
Nem sempre conseguimos estruturar um contra-argumento lúcido ali, no calor do momento. E tá tudo certo. Não é fácil mesmo.
Por isso, temos o direito de pedir um tempo e retomar a conversa depois.
Esse intervalo serve para deixar as emoções baixarem, processar o que foi dito e organizar o pensamento. Você não é obrigado a concordar na hora. No entanto, tem o dever de investigar antes de rejeitar.
Uma forma madura de pausar a conversa é simples:
“Eu não esperava ouvir isso. Obrigado por me falar. Preciso de um tempo para pensar sobre o que você trouxe. Eu anotei o que você falou e quero saber o que você acha de retomarmos essa conversa depois?”
Anote o que foi dito. Dê espaço para a cabeça esfriar.
Reflexão e Filtro
Pegue suas anotações e reflita com calma.
Converse com alguém de confiança que conheça seu trabalho e tenha equilíbrio suficiente para não apenas te defender, mas te ajudar a enxergar com clareza.
Para discordar com maturidade, você precisa saber exatamente do que discorda.
Pergunte-se:
Qual parte do que foi dito eu concordo e faz sentido?
Qual parte do que foi dito eu não concordo e por quê?
Quais exemplos e situações eu posso usar para mostrar a minha opinião?
O que o outro pode não estar enxergando e que eu preciso mostrar?
O que pode existir de verdade naquele feedback, mesmo que mal formulado?
Estou reagindo ao conteúdo, ao tom ou a pessoa?
Estou tentando proteger minha imagem ou analisando os fatos com honestidade?
Esse processo trará mais clareza sobre onde você e o outro concordam, e onde precisam se alinhar melhor. Sem clareza, a conversa vira disputa confusa. Com clareza, vira diálogo.
Realinhamento
Esse é um passo importante para a Cultura de Feedback. Sem ele, fica o silêncio.
O realinhamento tem duas funções.
A primeira é estabelecer sua posição.
Mostrar que refletiu sobre o que foi conversado e que consegue separar as coisas com maturidade e que tem uma visão diferente.
“Refleti sobre o que você trouxe. Concordei com alguns pontos, como X e Y. Mas tem outros em que vejo a situação de forma diferente. Queria conversar melhor sobre isso para garantir que estamos alinhados.”
A segunda é descobrir o que pode ser feito para mudar a percepção do outro.
Discordar cria impasses que pedem negociação, não fuga. É possível que o outro não mude a visão, mesmo com os exemplos de situações que você apresentou. Para dar um encaminhamento à conversa e tornar a discordância em algum tipo de plano de ação, você precisa descobrir o que mudaria a percepção do outro.
Pergunte:
“Apesar de discordar dessa visão, eu não gostaria que você me visse dessa forma. O que você precisa observar em mim para mudar essa percepção? O que você entende que precisa acontecer de diferente para mudar essa ideia?”
Essa resposta vai dar pistas do que pode ser diferente. A partir do que você ouvir, reavalie. Vale a pena? Pode ser que ajustar a percepção do outro seja menos complexo e desgastante do que parecia.
Discordar não precisa ser o fim da conversa.
Em um mundo plural, onde pessoas têm histórias, referências e expectativas diferentes, é natural que as visões não sejam sempre iguais.
Concordar com tudo gera silêncio artificial.
Engolir um feedback injusto cria outro problema lá na frente.
Discordar com cuidado também é uma forma de cuidar da relação.
Como você agiu quando passou por isso?



Ótimo texto. Feedback é sempre um tormento, na minha opinião. Tô gostando muito da tua news.